Para sair de casa sabendo que andarei com meu pai pelas ruas é necessário que antes disso eu faça uso do meu calmante. Isso porque ele não pára de comentar e apontar as mazelas recorrentes nelas. Diz que o centro do Rio só fica difícil de transitar porque ninguém sabe andar à direita (ele gostaria que existisse legislação de trânsito para pedestres também, só pode!) e que é um absurdo alguém parar para conversar na calçada.
Fui comentar que não ia mais pegar aqueles papeizinhos que o pessoal dá, porque toda vez eu ficava no vácuo, e que também era um absurdo, pois a rua ficava imunda. Se o povo soubesse jogar o papel no lixo e se ainda que as propagandas fossem decentes, mas não: "Mãe Zizi da Cochinchina traz seu amor em 3 dias" "Dinheiro Rápido! Slogan: faça esse empréstimo a juros de 100000 a.m e foda sua vida pro resto dela”. Propagando para pessoas desinformadas, as mesmas que também, por falta de educação - quero eu acreditar nisso - jogam papel na rua. E questionei o por quê não haver uma lei que proiba este tipo de propaganda. Pra quê eu fui fazer esse comentário perto do Dr Charles Albert? Ele começou: " Por que se eu fosse prefeito, esse povo iria se foder na minha mão, eu não iria permitir essa palhaçada, iria pegar o endereço que está no papel ia de um por um multando e prendendo. Antes mesmo que houvesse legislação para tal proibição.
Lixeira? Eles querem mesmo é pegá-las para tacar fogo sem motivo” (como se fosse possível haver motivo para tal ação). Ufa!
Continuamos caminhando... Ele comentou que Gabeira e ele bateram um papo em uma oportunidade rara por causa das eleições, meu pai estava criticando o tal e ao mesmo tempo elogiando-o por ter falado poucas e boas para o Severino Cavalcante e que ainda teria feito mais: "daria uns bons tapas naquele safado".
Não recordo-me como, mas ele (meu pai) adora falar dos povos "vadios" detentores do poder e do dinheiro do mundo. Começou a defender a Palestina, porque ela está numa guerra com pau e pedra (e homens-bomba) enquanto Israel tem melhor tecnologia em armamento de guerra. Ele acha injusto. Como se fosse possível alguma guerra ser justa.
Eu fico babando como meu pai é culto e nunca me deixa sem resposta para as perguntas mais inusitadas. Como hoje, estava morrendo de dúvida em relação a guerra da Geórgia, Rússia com Ossétia do Sul. Perguntei e não deu outra, tava meu pai respondendo minhas perguntas pretensiosas...
Ainda no vagão do metrô, caímos num assunto que muito me interessa: as metáforas da bíblia, livros apócrifos etc. Elias, João batista, espaçonaves, luz, fogo... Falamos sobre a nossa lógica cada vez mais aprimorada, a lei da relatividade, buraco negro. É, a bíblia é o máximo! Pena que a maioria não saiba interpretá-la.
Mas o fato é que, apesar de meu pai ter um jeito grosseirão e exagerado de se expressar, aquele homem guarda um conhecimento e sabedoria que eu admiro demais. Mesmo ele falando um monte de coisas que a princípio eu discordo. No fundo, ele consegue me fazer pensar melhor, e é certo, ele não costuma errar. Meu pai enxerga além, parece que prevê o futuro. Meu pai tem muitos defeitos, como qualquer ser humano, mas critica com coerência, não se contradiz. Tenho muito orgulho dele.
Sei que foi bom demais passar essa tarde com meu pai, em meio às atribulações e compromissos do dia-a dia.
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